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segunda-feira, 8 de junho de 2020

A RAPARIGA DOS RUBROS SILÊNCIOS

No campo, respira-se o ar lavado dos grandes espaços abertos; escuta-se a enigmática musicalidade do vento, o som melódico dos regatos, o coro dos passarinhos, a sinfonia perfumada das flores silvestres, a subtil leveza das colinas; no campo, sente-se a envolvência aveludada dos prados, a sombra sensual do arvoredo e o sedoso toque da brisa

No campo, ainda há quem fale com a terra e oiça, com espanto, o silêncio dos frutos. No campo, vive Laurinda, a rapariga de todos os encantos e desejos. Ela viaja pelo sonho, nas asas da fantasia, sob o Sol do seu ardente coração, como fazem os rios sem margens

Hoje, toda a aldeia está lá, no prado das cerejeiras vergadas pelo ímpeto dos frutos carnudos e vermelhos. A colheita é sôfrega, lasciva, extenuante. Os gigos enchem-se em torno dos troncos. Laurinda já não sonha e refugia-se no silêncio, respondendo, triste, magoada mas decidida, pela incumbência da Natureza. Vai dividindo a atenção, também, com um outro gigo colocado muito próximo de si. No seu interior, embrulhada numa manta fresca e limpa, dorme, inocente, a filha recém-nascida

Desde a última colheita que Martinho não mais procurou Laurinda. Esta vive de coração apertado e chora às escondidas. Contudo, não dá a face, enfrenta a adversidade. Doce, bela e jovem, só através dos seus grandes olhos verdes, deixa transparecer a angústia que lhe dilacera a alma. Faz hoje dezoito anos, mas ninguém se lembra do seu aniversário

Pelo lusco-fusco, são estendidas séries de lâmpadas coloridas entre as cerejeiras e a ramada lateral; não faltam os petiscos habituais e o vinho regional... e a música tocada de improviso. No centro, sob o brilho prateado das estrelas, os pares rodopiam ao som da concertina; no círculo dos mais velhos, as crianças buscam o aconchego das mães

De repente, Laurinda ergue-se com o bébé ao colo, discreta
; entra na roda e ensaia uns passos de dança. Todos lhe sorriem e lançam gracinhas à criança. Agora, a concertina rasga a noite com o seu gemido cortante, magoado e nostálgico

Martinho, então, aproxima-se, resoluto, entra na roda, envolve a rapariga e a filha num abraço largo e sentido, beijando a jovem com carinho.

CONTO de MANUEL BRAGANÇA DOS SANTOS - 1 de Maio de 2019

10 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Nasci no Ribatejo. Por lá não existe a apanha da cereja, mas existe, por exemplo a apanha da maçã, pêra, uvas, entre outros. No fim existem esses festas com petiscos, vinho, e alguém a tocar accordion ou concertina. São festas maravilhosas

Laurinda, Martinho e a filha, terminaram dançando. Tudo está bem quando acaba bem.

Nota : O link do seu blogue não atualiza.
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Uma semana feliz
Cumprimentos

chica disse...

Que lindo e tão doce conto, Beatriz! Adorei ler e iniciar o dia com uma leitura assim! Valeu! Como estás? Tudo bem? beijos, tudo de bom,chica e desejo ótima linda semana!

Mariazita disse...

Querida Beatriz
Muito bom, este conto que tão bem retrata a vida e o destino de tantas "Laurindas".
Parabéns ao mano.

Aproveito a oportunidade para agradecer a sua visita aos meus posts tão antigos!
Encanta-me que "alguém tão especial" ainda os leia...
OBRIGADA!

Com votos de um muito feliz "Dia do Corpo de Deus", deixo apertado abraço.

Continuação de boa semana.
Beijinhos
MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

lua singular disse...


Olá Beatriz

Um lindo e estonteante conto para um lindo final feliz de amor
Adorei
Beijos no coração
Lua Singular

SOL da Esteva disse...

Um excelente Conto com final feliz.
Deliciou-me e comoveu-me.
Parabéns ao irmão Manuel Bragança que tem "planta" de Escritor/Poeta.

Obrigado pela partilha, Beatriz.

Beijo
SOL

" R y k @ r d o " disse...

Passando a fim de desejar um fim de semana de Paz e bem
.
Deixando uma 🌹

Toninho disse...

Família de inspirados sempre nos brinda com belos escritos.
A descrição da personagem é fantástica e mostra a mulher como de fibra, gosto deste olhar Beatriz. Muito belo trabalho do Manuel e no fim ainda deixou este amor reacendido para uma familia feliz.
Gostei da arte do Manuel.
Beijo amiga.

Chris Ferreira disse...

Oi Beatriz fiquei aqui imaginando essa festa para colher as cerejas.
Um conto lindo e cheio de amor.
Muito obrigada por trazer para nossa leitura.
Continue a cuidar-te por aí.
beijos
Chris


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Giancarlo disse...

Buon fine settimana.

nassah disse...

Muito bom..